Inês de Castro

D.Inês de Castro (morreu a 7 de Janeiro 1355) foi uma dama Castelhana, filha ilegítima de Pedro Fernandez de Castro com D. Aldonza Soares de Valadares, que se tornou conhecida ao ter sua história lembrada por Camões no Canto III de "Os Lusíadas", onde faz referência à "...mísera e mesquinha, que depois de ser morta foi rainha...". Foi amante e declarada postumamente esposa legítima de Pedro I de Portugal. E sua desventurada vida e controvertido casamento ainda faz com que historiadores se debrucem sobre o caso, procurando indícios se houve ou não um casamento.

D. Inês chegou Portugal em 1340, integrada como aia no séquito de D. Constança Manuel, filha de João Manuel poderoso nobre descendente da Casa Real Castelhana, que iria casar com o príncipe Pedro, herdeiro do trono. O príncipe D. Pedro apaixona-se por Inês pouco tempo depois, negligenciando a mulher legítima, Constança, e pondo em perigo as débeis relações com Castela. Tentando colocar empecilhos entre D. Pedro e D. Inês, D. Constança dá a Inês seu filho recém-nascido, o Infante D. Luis (1343), em batismo, com a esperança de que os laços de parentesco espitirual impostos pelo compadrio afastasse os enamorados. Mas D. Luís não chega ao primeiro ano de vida, e pouco afeta os sentimentos de Pedro e Inês.

O Rei D. Afonso IV, exila D. Inês de sua corte em 1344, temendo o escândalo. Não há porém indícios de que o relacionamento tenha sido consumado, então.

Em Outubro de 1345, D. Constança Manuel morre em decorrência do nascimento do Infante D. Fernando, deixando Pedro viúvo e livre para enfrentar o pai e trazer D. Inês de volta do exílio em Albuquerque. O casal foi morar longe da corte ao norte de Portugal, onde nasceram os quatro filhos, os Infantes D. Afonso (morto ainda criança), D. João, D. Dinis e D. Beatriz, reconhecidos pelo pai. D. Pedro afastou-se da política, da corte e de suas prerrogativas de herdeiro.

Afonso IV tentou por diversas vezes organizar um terceiro casamento para o seu filho, com princesa de sangue real, mas Pedro recusa tomar outra mulher que não Inês. Entretanto, o único filho legítimo de Pedro, o futuro rei Fernando I de Portugal, mostrava-se uma criança frágil, enquanto que os bastardos de Inês prometiam chegar à idade adulta. A nobreza portuguesa começava a inquietar-se com a crescente influência castelhana sobre o futuro rei.

Depois de alguns anos no Norte, Pedro e Inês, retornam à Coimbra e se instalam no Paço de Santa Clara. A 7 de Janeiro de 1355, D. Afonso cede às pressões de seus conselheiros, e aproveitando s ausência de D. Pedro numa excursão de caça, assina a sentença de morte de D. Inês. Pero Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco dirigiram-se ao Mosteiro de Santa Clara em Coimbra, onde Inês se encontrava e a justiçaram, degolando-a. A morte de Inês não trouxe Pedro para mais próximo do pai, antes pelo contrário, o herdeiro revoltou-se contra Afonso IV, que responsabilizou pela morte. Mais uma vez pai e filho se encontram em campos opostos numa guerra civil. A Rainha D. Beatriz intervém e após meses de escaramuças, a paz é selada em Agosto de 1355.

Pedro tornou-se o oitavo rei de Portugal em 1357. Em Junho de 1360 faz a famosa declaração de Cantanhede, legitimando os filhos ao afirmar que havia casado secretamente com Inês, em 1354 "...em dia que não se lembrava...". A palavra do rei, e de seu capelão foram a única prova deste casamento, mas para tanto talvez devamos repensar a questão dentro do conceito de casamento na Idade Média. Pedro mandou construir dois esplêndidos túmulos no mosteiro de Alcobaça, um para si e outro para onde trasladou os restos de sua amada Inês. A tétrica cerimónia do beija mão, tão vívida no imaginário popular, provavelmente foi inserida nas narrativas do final do século XVI, depois de Camões escrever em seu Canto III, a tragédia da Linda Inês.

D. Pedro juntou-se à amada em 1367, e os restos de ambos jazem juntos até hoje.

A história de amor de D. Pedro e D. Inês

A segunda benção nupcial

D. Pedro e Dona Constança receberam a benção do casamento na Sé de Lisboa, em 1336. O momento mais solene foi na Sé de Lisboa, onde o arcebispo deu aos noivos a benção nupcial. Para todos era de júbilo aquela hora feliz.

D. Afonso IV e a rainha Dona Beatriz, sua mulher, sentiam especial contentamento por verem o jovem filho esposo de uma senhora que não seria certamente estéril como Dona Branca de Castela com quem, pela primeira vez, casara o Infante.

Tinham fé em Deus que a Dona Constança seria a mãe carinhosa de seus netos.

A bela garça

Viera de Castela, na companhia da princesa, uma linda moça, dama de honor, que se chamava Inês. Era uma donzela de linhagem fidalga, filha natural de D. Pedro de Castro, nobre guerreiro da Galiza, e bisneta do rei D. Sancho IV de Castela. Na verdade, era ainda parente de D. Pedro, sua prima em segundo grau.

Inês de Castro vivia na Corte com a senhora Dona Constança e D. Pedro, usufruindo os lazeres do dia a dia, a leitura, a música, as cabriolas do bobo, como convinha à gente de sangue nobre.

Os encantos de seu corpo, todavia, de que a Natureza com primor a dotara, fizeram-na atrair os olhares do Príncipe que não tardou a mostrar por ela uma preferência de simpatia e afeição. De olhos brilhantes, rosto prendado, de cabeleira abundante a cair sobre os ombros, de tronco roliço torneado pelo corpete de linho a mostrar o tronco generoso de encantos, a figura esguia de moça trigueira lembrava, no porte sereno e andar suave, em airoso traje pelos jardins do paço, uma garça de ternura e elegância. A formosura de Inês atraiu D. Pedro. A convivência com tão bela mulher em pouco tempo ateou o coração do Infante o amor e a paixão que não podia disfarçar.

Um estratagema falhado

A senhora D. Constança não vivia tranquila em seus paços, por causa de saber como D. Pedro cortejava a Dona Inês de Castro.

Tinha pensado, no entanto, que o próximo nascimento de um filho viria chamar o pai à recta razão de marido fiel que precisava de ser para viver um matrimónio feliz.

Era cada vez mais notório ao conhecimento das pessoas amigas que a rodeavam, nobres damas e senhores, o desvario amoroso do Príncipe.

Quando a princesa teve o primeiro filho, em 1342, o infante que houve o nome de Luís, foi grande o contentamento na Corte e até o povo festejou o acontecimento.

A Dona Constança lembrou-se, então, de usar a astúcia para afastar a Inês do esposo: convidou-a para madrinha do recém-nascido.

O estratagema era bem arquitectado pois que, sendo comadre de D. Pedro, a jovem fidalga teria certamente o bom senso de manter a devida distância entre ambos, como mandava a lei divina da Igreja.

Aparentemente, a princesa mãe tinha conseguido o seu intento. Mas não duraria muito a ilusão: na verdade, tal como anteriormente, sucedia-se o encontro dos amantes.

Um mal que vinha por bem

A saúde precária da senhora Dona Constança e os desgostos de uma vida amargurada não iriam permitir-lhe durar muito.

O infante D. Luís, pouco tempo depois de nascer, falecera. O segundo filho a quem dera o nome de Fernando, fora amamentado e era criado por uma ama de confiança.

A mãe escondia o mais possível a dor de sua desgraça conjugal, procurando a distracção e alívio no passeio pelas verduras do palácio, por entre arbustos e flores, na terra viçosa, em conversas amenas com as suas aias, e no gozo dos serões, no interior do solar, ouvindo a melodia dos jograis, o som mavioso da flauta, da viola, das trompas e das harpas, no aconchego do salão iluminado por archotes, adornado de tapeçarias e brasões.

A Dona Constança passava noites a meditar a sua triste sorte.

Em longas noites de Inverno, sentada junto à lareira ampla da torre, pensava muitas vezes em fazer peregrinação a Santiago de Compostela, para rogar protecção e paz a seu lar ameaçado. Não chegou porém, a realizar seus sonhos.

Efectivamente, morreu de parto, logo a seguir ao nascimento da filha Maria, em 1345.

Nem o físico nem o astrólogo da Corte haviam conseguido salvar a vida da princesa. A tragédia consternou a todos. Mas D. Pedro ficava livre para cair nos braços da Inês.

Cartas clandestinas

Por altura da morte de Dona Constança, andava o rei Afonso IV em grande questão com o bispo do Porto. Na verdade, o monarca submetera a cidade à sua jurisdição e o bispo lançou o interdito sobre a diocese. Este era um problema entre outros a resolver.

Habitualmente, com a sua comitiva de nobres, percorria o Reino, para ver como corria a administração, para aplicar justiça e para consumir alimentos de seus palheiros.

A questão dos amores entre D. Pedro e Dona Inês preocupava o velho soberano, mais que tudo.

Resolveu encontrar uma solução para o caso e obrigou a amante do filho a exilar-se para a terra de Albuquerque, na região da raia entre Castela e Portugal.

Frustaram-se, no entanto, as intenções do rei.

De facto, não separou os apaixonados que comunicavam entre si por cartas levadas e trazidas secretamente. Quem fazia o serviço de correio, para iludir melhor a vigilância dos ricos-homens, eram os almocreves que transportavam mercadorias de cidade para cidade, atravessando coutos e concelhos, segundo ordem dos burgueses seus patrões. Os almocreves levavam consigo as cartas de D. Pedro para Inês. Foi assim que o amor de Pedro e Inês, longe de perturbar-se ou amortecer, se tornou mais sólido e capaz de superar quaisquer obstáculos e adversidades.

Amor Louco

Ninguém podia suster a força do amor que unia, de modo irresistível, o Príncipe à mulher de sua paixão. Era, de facto, tão ardente e tão profundo o sentimento do casal enamorado que D. Pedro, contra ordem de seu pai, mandou vir Dona Inês para Coimbra. Acabava, assim, o desterro em Albuquerque e começava uma nova fase da vida para os dois, finalmente juntos.

O rei D. Afonso IV continha, apesar de tudo, o seu furor por uma tal desobediência. O soberano não queria, por sua vontade, entrar em guerra com o Infante porque sabia, por experiência própria, como eram terríveis as contendas familiares e que desgosto causaria a Dona Beatriz, sua mulher, a violência contra o filho herdeiro.

A existência de D. Pedro e da linda Inês era imensamente feliz. Habitavam em Santa Clara, na margem esquerda do rio Mondego.

Ali nasceram seus filhos: o primeiro chamou-se Afonso, o nome do avô, mas morreu criança de tenra idade; os outros, dois meninos ( João e Dinis ) e uma menina ( Beatriz ), cresceram com saudável robustez física, rodeados de carinho e ternura dos pais, como flores de esperança no vale que se abria ar puro do céu azul.

Razões de Estado

Tinham quase passado dez anos desde que falecera a senhora Dona Constança.

O pequeno infante Fernando, seu filho, vivia em Lisboa, nos paços reais do avô, sendo educado como um príncipe que, um dia, havia de subir ao trono de Portugal.

Ora acontecia que os conselheiros da Corte diziam e repetiam ao senhor D. Afonso IV que havia um grande perigo para a Coroa e para o futuro próximo do País se a Dona Inês viesse a ser rainha. Efectivamente, ela pertencia à nobre família dos Castros, de fidalguia ambiciosa, que não desistia de pretensões ao Trono Castelhano. Poderia muito bem dar-se o caso de um filho de Dona Inês vir a ser rei, ainda que para tal fosse preciso matar o legítimo herdeiro do Reino...

E não era difícil imaginar que essa nobreza poderosa pudesse subir ao Poder nos dois Estados Ibéricos, pondo fim à Independência da Pátria Portuguesa.

D. Afonso IV ouvia e ficava inquieto, sem saber o que havia de decidir. Chegou a pensar em reunir as Cortes para que lhe dessem opinião prudente. Tremia só de prever que, em tempos vindouros, os seus netos iriam lutar a ferro e fogo pela posse do Trono de seu avô.

O triste luar de Janeiro

Os primeiros tempos do ano de 1355 iam testemunhar uma tragédia de sangue. O príncipe D. Pedro nem presumia o que estava para acontecer quando se despediu da sua querida Inês e seus filhos para iniciar a caça de montaria pelos montes e florestas da Beira, a cavalo, com nobres amigos e escudeiros.

Por aqueles dias, D. Afonso IV subiu a Montemor-o-Velho com o seu séquito e ali reuniu os seus conselheiros de Estado, Diogo Lopes Pacheco, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho, para tomar uma decisão sobre o destino da vida de Inês de Castro. Os argumentos que ouviu não o convenceram mas conseguiram, de facto, que a hesitação vencesse finalmente e entregasse a sorte da amante de D. Pedro nas mãos dos que a queriam ver morta.

No dia 7 de Janeiro, ao cair da noite, Inês de Castro foi surpreendida pela chegada dos reis e dos conselheiros. Não houve lágrimas nem gemidos de crianças inocentes que impedissem a execução da vítima.

Quando o luar brilhou no firmamento, veio encontrar a pobre Inês sem vida, degolada friamente pelo machado do carrasco. Nunca, na história de Portugal, houve ou haveria um crime de horror tão inclemente.

A terrível vingança

Ao tomar conhecimento da morte de Inês, o príncipe D. Pedro arrebatou de cólera e raiva. O seu temperamento intempestivo reagiu com a ferocidade de um tigre ferido. Chamou às armas nobreza e povo de sua confiança, levantou Trás-os-Montes e Douro pela sua causa e desafiou o rei, seu pai, para uma guerra. Felizmente, a intervenção da rainha D. Beatriz conseguiu evitar o pior e levou os contendores à Paz de Canavezes, nos arredores do Porto. As promessas que fez de perdão aos seus inimigos depressa as esqueceu D. Pedro quando subiu ao Trono, no ano de 1357.

O ódio que tinha aos conselheiros atirou-os para o calabouço da prisão; escapou ,por sorte, Diogo Lopes Pacheco, que fugiu a tempo para terra de França.

A vingança foi consumada nos paços de Santarém. D. Pedro mandou amarrar as vítimas, cada uma a seu poste de suplício, enquanto os cozinheiros de sua Corte preparavam um lauto banquete de cerimónia. O rei não poupou requintes de horror no castigo implacável. Mandou o carrasco tirar a um o coração pelas costas e a outro o coração pelo peito. Por fim, como sentisse que não bastava a tortura tremenda, ainda teve coragem para trincar aqueles corações que, para ele, seriam malditos para sempre.

Noites de insónia

Cinco anos depois da morte de Inês de Castro, o rei D. Pedro afirmou solenemente na vila de Cantanhede, distrito de Coimbra, que, de facto, se casara com sua amada, clandestinamente, na cidade de Bragança. Logo, nesse ano de 1360, mandou construir, na igreja do mosteiro de Alcobaça, dois túmulos sumptuosos, um para Inês e outro para ele, quando a morte o levasse. Nunca mais o monarca amargurado teve companhia que lhe fizesse esquecer o grande amor da sua vida. Muitas vezes aconteceu que, nem de noite, tinha repouso tranquilo. Os pesadelos perturbavam-lhe o sono e o rei, para esquecer, saía para as ruas de Lisboa, acordava o povo ao redor, ateava fogueiras para a festa e dançava com ele até madrugada. Amiúde mandava matar bois e bezerros, distribuía carne aos pobres e necessitados, com um coração generoso que as gentes da capital e do Reino admiravam e amavam; não só porque era pródigo em dar de comer a quem tinha fome, mas também porque sempre soube fazer justiça, dar prémios aos bons e castigo aos maus. O povo não esqueceria nunca o soberano e diria, de geração em geração, que dez anos como aqueles que reinou D. Pedro nunca houve em Portugal.

Funeral da rainha

O senhor D. Pedro resolveu fazer a homenagem merecida a Dona Inês, rainha de Portugal. Ordenou então, a transladação dos restos mortais de Coimbra para o túmulo de Alcobaça. Foi um cortejo fúnebre de imponência nunca vista; pela estrada fora, por entre povo do campo que vinha chorar à berma do caminho, seguia a multidão de gente, com círios acesos, a melhor fidalguia do Reino, senhores e senhoras, a cavalgar corcéis, a passo solene, membros do clero e burgueses, todos em traje de pesar doloroso. Ao longo da viagem, a perda da rainha foi pranteada por grupos de carpideiras que soltavam gritos lancinantes e entoavam melodias plangentes; viam-se homens com cinza na cabeça, de cabelos rapados e sem barba, na expressão pública do luto. Escudeiros vestidos de estamenha crua transportavam a urna com o ataúde de Inês, carregando aos ombros os varais escuros, precedidos de alferes com pendões abatidos. Na frente do préstimo, um franciscano segurava uma enorme cruz de pinho. No transepto da igreja de Alcobaça, D. Pedro disse o último adeus à esposa. Nunca houvera paixão assim! Até nasceu a lenda de que o rei se desvairou a ponto de fazer coroar Inês, depois de morta, e obrigar a nobreza a beijar-lhe a mão de rainha.

A história de amor de Pedro e Inês de Castro ainda hoje continua comover quem a conhece. Era uma vez um príncipe - Pedro - filho do Rei Afonso IV de Portugal. O seu pai obriga-o a casar com uma princesa espanhola, Dona Constância. Entre as aias que trouxe para Portugal, vinha uma jovem lindíssima - Inês de Castro. Pedro não tardou a apaixonar-se por Inês. D. Afonso IV acabou por expulsar Inês de Portugal, mas isto não impediu que os dois amantes se encontrassem, tendo nascido deste amor proibido duas belas crianças. Estando Inês na Quinta da Lágrimas, em Coimbra, o Rei mandou-a matar, assim como aos seus filhos. Pedro mal soube do sucedido, declarou guerra ao pai. Após a morte deste, Pedro ascendeu ao trono de Portugal. Haviam passado dois anos sobre a morte de Inês, mas Pedro não descansou. Mandou arrancar o coração aos seus carrascos, Inês foi desenterrada e Pedro casou-se com ela, fazendo-a coroar rainha de Portugal. Todos aqueles que a condenaram foram então obrigados a beijar as mãos de uma morta...mas rainha no amor que Pedro lhe tinha.

No Mosteiro de Alcobaça, D. Pedro I mandou fazer um magnifico túmulo para a sua rainha e depois, ao lado, mandou fazer o seu.

Pedro e Inês de Castro

D. Pedro I

Oitavo rei de Portugal, quarto filho de D. Afonso IV e de Beatriz de Castela.

Casou primeiro com Branca de Castela, a quem repudiou por debilidade física e mental. Casou depois com Constança Manuel, filha de, um fidalgo castelhano que, quando veio para Portugal, trouxe consigo Inês de Castro.

A ligação amorosa entre o infante D. Pedro e Inês de Castro foi imediata o que provocou forte conflito entre D. Afonso IV e seu filho e provocou a morte prematura de Constança Manuel. Temendo o monarca a nefasta influência dos Castros em seu filho, resolveu condenar à morte Inês de Castro, o que provocou a rebelião de D. Pedro contra si. Contudo a paz entre o pai e o filho foi estabelecida em breve e D. Pedro foi associado aos negócios do Estado, ficando-lhe desde logo incumbida uma função, que sempre haveria de andar ligada à sua memória – a de exercer justiça.

Durante o seu reinado evitou guerras; logrando aumentar o tesouro. Cunhou ouro e prata. E exerceu uma justiça exemplar, sem discriminações, julgando de igual modo nobres e plebeus.

Os documentos coevos e o testemunho de Fernão Lopes definem-nos D. Pedro como justiceiro, generoso, folgazão, amado pelo povo e de grande popularidade. A sua morte o povo dizia que «ou não havia de ter nascido, ou nunca havia de morrer».

Ficha genealógica:

D. Pedro I nasceu em Coimbra a 8 de Abril de 1320 e morreu em Lisboa a 18 de Janeiro de 1367. Casou em 1328 com a princesa D. Branca de Castela, não se consumando o matrimónio por doença da noiva. Em 1334 tratou-se de um novo consórcio com a infanta D. Constança, que nasceu em data incerta e morreu em 1345, filha de D. João Manuel, infante de Castela. Tiveram a seguinte descendência:

1. D. Maria, nasceu em Évora a 6 de Abril de 1342; casou em 1354 com o infante D. Fernando de Aragão; morreu em Aveiro depois de 1363, ficando sepultada no Convento de Santa Clara de Coimbra;

2. D. Luís, nasceu em 1344 e morreu uma semana depois;

3. D. Fernando, que herdou a coroa.

De uma nobre castelhana, D. Inês de Castro, nascida ao redor de 1325, tendo morrido em Coimbra em 1354, foi sepultada em Alcobaça em 1361, filha de D. Pedro Fernandes de Castro a de D. Aldonça Soares de Valadares, teve os seguintes filhos:

4. D. Afonso (morreu de tenra idade);

5. D. João, nasceu em data incerta c. 1349; faleceu em Salamanca após 1385, tendo sido candidato ao trono português;

6. D. Dinis, nasceu em data incerta por volta de 1350, foi aclamado rei em Santarém, no ano de 1384, mas já tomara o partido de Castela; fundou a casa de Vilar no reino vizinho, tendo morrido em data incerta;

7. D. Beatriz, nasceu em Coimbra c. 1351; foi educada em Santa Clara de Coimbra; casou com D. Sancho, conde de Albuquerque, irmão de D. Henrique II de Castela; morreu em data incerta.

De uma Teresa Lourenço, nasceu em 14 de Agosto de 1356:

8. D. João, que veio a ser Mestre de Avis a primeiro rei da segunda dinastia.

Fontes:

Joel Serrão (dir.)

Pequeno Dicionário de História de Portugal,

Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976

Joaquim Veríssimo Serrão,

História de Portugal, Volume I: Estado, Pátria e Nação (1080-1415),

2.ª ed., Lisboa, Verbo, 1978

Inês de Castro

Inês de Castro é uma figura da história de Portugal tomada inúmeras vezes como tema de várias obras literárias, não só na literatura nacional, como também na de outros países.

A Inês de Castro histórica era filha de um fidalgo galego, D. Pedro Fernandes de Castro. Foi uma das damas que acompanharam D. Constança quando esta veio para Portugal para casar com D. Pedro, futuro D. Pedro I, filho de D. Afonso IV. Este apaixonou-se por D. Inês, de quem teve filhos, e, segundo algumas fontes, declarou ter casado com ela, secretamente, já após a morte de D. Constança.

O amor de D. Pedro e D. Inês suscitou forte oposição por motivos de ordem política. Temia-se que D. Fernando (filho de D. Pedro e D. Constança) fosse afastado do trono, tornando-se herdeiros da coroa os filhos de D. Inês. Por esse motivo, D. Afonso IV, pressionado pelos seus conselheiros, mandou executar Inês.

Esta história de amor trágico tem sido tema de obras teatrais, narrativas e líricas que abordam, em maior ou menor grau, quer o fundo psicológico de Inês, quer o conflito de que ela é centro. Como fonte mais próxima dos acontecimentos, os escritores que a ela se referiram tinham as crónicas de Fernão Lopes e Rui de Pina, entre outros.

A primeira aparição dos amores de D. Inês na literatura dá-se com as Trovas à Morte de Inês de Castro, de Garcia de Resende, no Cancioneiro Geral de 1516. Nelas, Inês, no Inferno, lamenta a tristeza da sua sorte, advertindo as mulheres para os perigos do amor. No entanto, é com Os Lusíadas, de Luís de Camões, que se constitui o mais influente fundo lírico do episódio de D. Inês de Castro, a «linda Inês», tal como surge no canto III. Muitas das referências a espaços, como os campos do Mondego, e à figura dos carrascos surgem pela primeira vez neste poema, como parte integrante da história nacional. A influência da obra de Camões, em geral, na literatura portuguesa, contribuiu em muito para firmar Inês de Castro como uma das suas personagens mais férteis. Em 1587, era editada A Castro, a primeira tragédia clássica portuguesa, que, como tema nacional, aproveitava precisamente os amores de D. Inês, dando particular atenção ao conflito interior de D. Afonso IV, nas suas hesitações quanto à sorte a dar à mulher do seu filho.

Ao longo dos séculos, a história de D. Pedro e D. Inês foi sendo enriquecida com inúmeros outros pormenores, dentro e fora de Portugal. O espanhol Jeronimo Bermudez escreveu a Nise Lacrimosa. No século XVII, a união com Espanha proporcionou um maior contacto cultural entre os dois países. Escritores portugueses escreveram também sobre o tema em castelhano, como foi o caso de D. Francisco Manuel de Melo, com os Sonetos a la Muerte de D. Inês de Castro. No século XVIII, Inês de Castro (1723), do francês Houdar de la Motte, celebrizou a história de Inês em toda a Europa, acentuando os aspectos sentimentais.

Em Portugal, os amores de D. Inês popularizaram-se, não só na literatura erudita (com os árcades Manuel de Figueiredo e Reis Quita), mas também entre o povo, com o teatro de cordel. Também Bocage lhe dedicou uma cantata.

Com o Romantismo, aumentou o interesse pelos factos históricos associados ao episódio. Alexandre Herculano e Oliveira Martins, entre outros, procuraram investigar, com algum rigor, as pessoas e factos históricos. No entanto, o fundo sentimental dos amores trágicos do par destes amantes respondia também ao gosto do público, quer pelo seu fatalismo, quer pelo conflito, que opunha o indivíduo à sociedade (corporizada no Estado e em Afonso IV), quer pela sua localização na época medieval. O historicismo que caracteriza este período reflecte-se, pois, na literatura então escrita sobre o tema, e nomeadamente nos dramas históricos de Henrique Lopes de Mendonça (A Morta) e António Patrício (Pedro, O Cru), sendo de notar uma crescente atenção à figura de D. Pedro.

Após o Romantismo, o tema persistiu vivamente numa literatura de carácter nacionalista e saudosista, explorando aspectos da lenda, persistindo em todo o século XX. Mais recentemente, podem indicar-se exemplos como os dos poetas Ruy Belo, Miguel Torga ou Natália Correia. Mesmo a nível internacional, e já no século XX, alguns escritores têm recorrido a Inês de Castro como tema das suas obras. Disso é exemplo o escritor existencialista francês Henri de Montherlant, com La Reine Morte.

Enquanto personagem, Inês de Castro tem assumido características diferentes de acordo com o autor e a época em que os textos são produzidos. A universalidade e intemporalidade do tema do amor puro (que sobrevive à morte, no caso de D. Pedro; um dos aspectos fecundos da lenda é o da coroação de Inês, já morta, por D. Pedro, e o da vingança cruel do rei, que persegue e executa barbaramente os seus carrascos), a tragédia da morte inocente face à mesquinhez dos interesses humanos, têm garantido à figura de D. Inês uma resistência ao tempo e possibilitado uma actualização permanente, em termos estéticos, dos meios de contar a sua história. Mais do que uma personagem, Inês, e com ela D. Pedro, é o símbolo do amor inocente e infeliz.

INÊS DE CASTRO

A paixão fatal d'el-Rei D. Pedro: 1325? - 1355

ESTAVAS, LINDA INÊS, POSTA EM SOSSEGO...

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1320: Em Coimbra, a 8 de Abril, nasce o príncipe D. Pedro, filho de D. Afonso IV, rei de Portugal. - 1340: D. Afonso IV participa na batalha do Salado ao lado de Afonso XI de Castela, é a vitória decisiva da cristandade sobre a moirama da Península Ibérica. Inês de Castro, dama galega, vem para Portugal no séquito de D. Constança, noiva castelhana de D. Pedro; paixão adúltera e fulminante de Pedro por Inês. - 1345: Nasce D. Fernando, filho de D. Constança e de D. Pedro. - 1349 ?: Morte de D. Constança. - 1354: Influenciado pelos Castro (irmãos de Inês), D. Pedro mostra-se disposto a intervir nas lutas dinásticas castelhanas. - 1355: A 7 de Janeiro, com o consentimento d'el-Rei D. Afonso IV, nos paços de Santa Clara (Coimbra) Diogo Lopes Pacheco, Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves degolam Inês de Castro; revolta de D. Pedro contra o pai. - 1357: Morte de D. Afonso IV; D. Pedro sobe ao trono e manda executar os assassinos de Inês de Castro. - 1361: Do Mosteiro de Santa Clara (Coimbra) para o Mosteiro de Alcobaça, D. Pedro I manda trasladar os restos mortais de Inês de Castro. - 1367: A 18 de Janeiro morre D. Pedro I, em Estremoz.

COLO DE GARÇA

Viajar no tempo é meu condão. Aponto ao sec. XIV, pois quero certificar-me de ocorrência que me intriga. No caminho vejo três poetas, três vezes paro eu. Abordo-os, um a um. Digo-lhes ao que vou, convido, aceitam, embarcam. São eles: Luís de Camões, nascido em 1542; António Ferreira, nascido em 1528; e Garcia de Resende, nascido talvez em 1470.

Em 1340 arribamos a Coimbra e ali descemos. É noite. Grande agitação pelas ruas e vielas, cantorias, arraiais, bailaricos, todo o povo a festejar o regresso de D. Afonso IV. Homem bravo, fora ele quem acudira a Afonso XI de Castela para, na batalha do Salado, em conjunto derrotarem a moirama da Península Ibérica.

Um rancho com tochas acesas sai de um beco. Logo depois, cercado por tocadores de trompas e adufes, em passos ligeiros e bem marcados, surge um folião que a todos arrasta para a dança colectiva.

Garcia de Resende reconhece o dançarino:

- Mas é D. Pedro, o filho d'el-Rei D. Afonso IV...

E tem razão, é D. Pedro que, apesar de Príncipe herdeiro, não se recusa a conviver, a bailar e a divertir-se com a arraia-miúda.

Diz Camões:

- O Príncipe a bailar e não tarda muito vai casar...

Palavras ditas e, sem sabermos como tal aconteceu, logo nos encontramos na Sé de Lisboa a assistir à benção nupcial. Já corre o mês de Agosto, sol é o que não falta à beira-Tejo. Casamento, mas de conveniência, como são todos os que se realizam entre os nobres dos vários reinos ibéricos (e europeus...). A noiva, D. Constança, é fidalga castelhana cujo pai mantém um contencioso com Afonso XI de Castela. Talvez por isso, faz parte do séquito de D. Constança, D. Inês de Castro, dama galega cujos irmãos também hostilizam D. Afonso XI.

D. Constança é a noiva, sabemos disso. Mas D. Pedro fica é deslumbrado com formosura de D. Inês que, por sinal, é sua prima segunda (os tais cruzamentos de sangue dos nobres ibéricos...).

Também Camões queda embevecido, murmura:

- Colo de garça...

Vontade minha é dizer “quanto mais prima, mais se lhe arrima...” Mas não digo, a situação é delicada, gracejos perdem o sentido. Pergunto apenas:

- Quem pode resistir a tamanha boniteza? Bem entendo a perturbação do Príncipe...

António Ferreira mostra-se inquieto, assusta-se, assusta-nos:

- Vem aí uma tragédia, prevejo...

RAZÃO DO ESTADO, RAZÃO DO AFECTO

Se Inês perdeu a fala, mudo ficou D. Pedro. O Príncipe enamorado e a dama de companhia que não se esquiva à investida. Inês seduzida ou sedutora? Creio que isto e aquilo mas num mesmo instante, paixão a fulminar os dois amantes... Adultério, pecado? Lá pecado será, porém mortal é que não. Venial, pecadilho daqueles que se purgam com uma confissão e meia dúzia de padre-nossos. Portanto, se condenados vão ser os amantes, não será por motivo religioso, mas por outro...

E condenados estão eles. Condena-os a nobreza e condena-os el-Rei D. Afonso IV. Por dois motivos, mas políticos:

1.º - De D. Constança, entretanto falecida, D. Pedro tem um legítimo herdeiro ao trono, D. Fernando. De Inês de Castro, D. Pedro tem três bastardos. El-Rei e a nobreza temem que algum dos bastardos possa, futuramente, querer impugnar a legitimidade de D. Fernando. Portanto, perigo eventual de guerra civil;

2.º - Os Castros, irmãos de Inês, pressionam D. Pedro no sentido de tomar para si também o trono de Castela. Em finais de 1354 D. Pedro acaba por aceitar a ideia. Só por pressão do pai é que, à última hora, suspende a sua intervenção em Castela. A nobreza e el-Rei temem que D. Pedro acabe por arrastar o reino de Portugal para as lutas dinásticas de Castela.

Entendem os nobres, alvitra el-Rei, que só a morte de Inês de Castro poderá livrar o Príncipe de tão funesta influência.

Qual será a mais forte das razões? A do Estado ou a do afecto?

Ó TU, QUE TENS DE HUMANO O GESTO E O PEITO...

Inês de Castro assassinada. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo?

Mas não é só a nobreza e el-Rei a condenarem os amantes. Também a arraia-miúda, por temer guerras com os castelhanos, os condena. No norte de Portugal o cognome que se dá a “putas intriguistas” passa a ser “Inês de Castro”...

Eu, e os meus companheiros de viagem, chegámos a Coimbra em 1340. Agora já estamos nos primeiros dias de Janeiro de 1355. No Castelo de Montemor-o-Velho assistimos à reunião do conselho de D. Afonso IV. Nobres influentes, como Diogo Lopes Pacheco, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves, convencem el-Rei a decretar a morte de Inês de Castro. D. Pedro está fora, numa caçada, e a 7 de Janeiro aqueles três nobres e el-Rei aproveitam a ausência para invadir o Paço de Santa Clara, em Coimbra.

Apenas eu, e os meus companheiros, nos revoltamos contra a hipótese da matança. Camões (1) descreve o remanso inicial:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruito,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito (...)

Quando no Paço de Santa Clara irrompem el-Rei e os matadores, Garcia de Resende (2) põe Inês de Castro a clamar:

“Estes homens d'onde irão?”

E tanto que perguntei,

Soube logo que era el-Rei.

Quando vi tão apressado,

meu coração trespassado

foi, que nunca mais falei.

E quando vi que descia,

Saí à porta da sala;

Devinhando o que queria,

Com grã choro e cortesia

Lhe fiz ua triste fala.

Meus filhos pus derredor

De mim, com grã humildade;

Mui cortada de temor,

Lhe disse: “havei, Senhor,

Desta triste, piedade!

Não possa mais a paixão

Que o que deveis fazer;

Metei nisso bem a mão,

Que é de fraco coração

Sem porquê matar mulher;

Quanto mais a mim, que dão

Culpa não sendo razão,

Por ser mãe dos inocentes

Que ante vós estão presentes,

Os quais vossa netos são.

E têm tão pouca idade

Que, se não forem criados

De mim, só com saudade

E sua grã orfandade,

Morrerem desemparados.

Olhe bem quanta crueza

Fará nisto Vossa Alteza,

E também, Senhor, olhai,

Pois do príncipe sois pai,

Não lhe deis tanta tristeza.

(...)

Também António Ferreira (3) ouve e descreve algo de equivalente, Inês de Castro a censurar Afonso IV:

Esta é a mãe dos teus netos. Estes são

Filhos daquele filho, que tanto amas.

Esta é aquela coitada mulher fraca,

Contra quem vens armado de crueza.

(...)

Que te posso querer, que tu não vejas?

Pergunta-te a ti mesmo o que me fazes,

A causa, que te move a tal rigor.

Dou tua consciência em minha prova.

S'os olhos de teu filho s'enganaram

Com o que viram em mim, que culpa tenho?

Paguei-lhe aquele amor com outro amor,

Fraqueza costumada em todo estado.

Se contra Deus pequei, contra ti não.

Não soube defender-me, dei-me toda,

Não a imigos teus, não a traidores.

A que alguns segredos descobrisse

Confiados em mim, mas a teu filho,

Príncipe deste Reino. Vê que forças

Podia eu ter contra tamanhas forças.

Camões (1) reforça a fala de Inês:

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar uma donzela,

Fraca e sem força, só por ter sujeito

O coração a quem soube vencê-la),

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela;

Mova-te a piedade sua e minha,

Pois te não move a culpa que não tinha.

António Ferreira (3) prossegue o discurso da Castro:

Não cuidava, Senhor, que t'ofendia.

Defenderas-mo tu, e obedecera,

Inda que o grand'amor nunca se força.

Igualmente foi sempre entre nós ambos;

Igualmente trocamos nossas almas.

Esta que ora te fala, é de teu filho.

Em mi matas a ele, ele pede

Vida par'estes filhos concebidos

Em tanto amor. Não vês como parecem

Aquele filho teu? Senhor meu, matas

Todos, a mim matando; todos morrem.

(...) ai meus filhos,

Chorai, pedi justiça aos altos Céus,

Pedi misericórdia a vosso avô

Contra vós tal cruel, meus inocentes.

Ficareis cá sem mim, sem vosso pai,

Que não poderá ver-vos sem me ver.

Abraçai-me, meus filhos, abraçai-me,

Despedi-vos dos peitos que mamastes.

(...)

Confrangido, el-Rei hesita, retira-se. Diogo Lopes Pacheco, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves que decidam o que fazer... E eles decidem: matam, degolam Inês.

Camões (1) descreve e pergunta:

Arrancam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra uma dama, ó peitos carniceiros,

Feros vos amostrais e cavaleiros?

Vence a razão do Estado, morre a do afecto...

PEDRO, JUSTICEIRO E CRU

Quero comentar esta chacina com os meus companheiros de viagem. Procuro por eles em Santa Clara, em Coimbra, no choupal, nas margens esquerda e direita do Mondego, mas não os encontro. Concluo que, arrepiados com a morte matada de Inês de Castro, cada qual decidira regressar ao seu próprio tempo, esse é o centro de gravidade que está sempre a puxar por nós. Fácil é tornar a ele, é só escorregar e deixar-nos ir a meio do sono; quando acordamos já estamos lá. Mais difícil é livrar-nos dele, há que ter condão. Eu, que sou um obstinado, resolvo ficar por aqui mais um bocado...

Vejo D. Pedro pegar em armas contra o pai. Com a sua tropa, tenta mesmo ocupar a cidade do Porto. Mas também vejo o bispo de Braga a tentar apaziguar a desavença. Para minha surpresa, D. Pedro amansa. Deduzo que as palavras mágicas tenham sido “a guerra civil envolve sempre o martírio de inocentes”, e D. Pedro a lembrar-se então da inocência dos seus filhos com D. Inês...

El-Rei exige que D. Pedro não persiga os matadores de Inês de Castro e o Príncipe garante que já os perdoou. El-Rei finge aceitar a palavra dada, mas dela desconfia... De qualquer forma, começa a partilhar com o filho o mando e o comando do Reino. Mas quando em 1357 cai no leito de morte, ainda consegue aconselhar os matadores a exilarem-se em Castela. Pelo sim, pelo não, os três abalam e tratam de cruzar fronteira...

Morre el-Rei D. Afonso IV e a primeira medida de D. Pedro de Portugal é combinar com D. Pedro de Castela (filho de D. Afonso XI), a troca de homiziados castelhanos em Portugal por homiziados portugueses em Castela. É assim que são entregues à justiça portuguesa Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Diogo Lopes Pacheco consegue fugir a tempo de Castela para Aragão e daqui para França.

Enquanto trincha e come a sua vianda mal passada pelas brasas e bebe o seu vinho tinto, D. Pedro I vai assistindo à demorada tortura de Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. A um, é arrancado o coração pelas costas, a outro pelo peito. Persignam-se os nobres e murmuram, apavorados:

- El-Rei traiu a palavra dada...

Mas a um homem bom (é o nome que neste tempo se dá a um burguês conceituado), ouço dizer:

- Quem trai a quem fez traição, tem cem anos de perdão...

A obsessão d'el-Rei D. Pedro I passa a ser a justiça que aplica, de forma inclemente, contra criminosos quer de origem nobre, quer plebeia, sem fazer distinção entre uns e outros, o que muito agrada à arraia-miúda. Porém, mais do que fazer justiça, D. Pedro gosta é de ver aplicá-la, goza muito com o sofrimento dos condenados. Por isso ora dizem que é Justiceiro, ora dizem que ele é Cru (cruel). Séculos mais tarde irão chamá-lo psicopata, sádico. Não digo que não seja mas estou em crer que a sua Inês degolada em frente dos filhos, infectou e fez purgar o lado obscuro da sua alma...

Nos intervalos entre a aplicação da justiça e a governação do Reino, do que D. Pedro mais gosta é de sair pelas ruas a bailar e a folgar com outros foliões da arraia-miúda.

Mas nunca se esquece da sua paixão. Comentam que, depois da morte de D. Constança, teria casado secretamente com Inês de Castro. Nunca ouvi D. Pedro dizer tal coisa e duvido que isso tenha acontecido, pois seria afrontar desnecessariamente el-Rei D. Afonso IV. Além do mais, para poder casar com uma prima, teria que obter licença especial, bula papal. E desta não há qualquer notícia...

Tenta é preservar a memória de Inês de Castro. Mandou esculpir dois túmulos, um para Inês, outro para ele. Colocados lado a lado, virão a ser os grandes expoentes da arte tumular medieval portuguesa. Os baixos relevos do túmulo de D. Inês representam cenas da vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. Sobre a tampa está esculpida a imagem de Inês, de corpo inteiro, com coroa na cabeça como se fora rainha. As esculturas do túmulo de D. Pedro representam cenas da vida dos dois apaixonados desde a chegada de Inês a Portugal. Por sua ordem, os dois túmulos são colocados dentro da igreja, à mão direita, cerca da capela-mor do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Em 1361 D. Pedro manda trasladar os resto mortais de D. Inês, do Mosteiro de Santa Clara para o Mosteiro de Alcobaça. Os restos mortais seguem em liteira de luxo, conduzida por grandes cavaleiros, acompanhada por muita gente, nobres, clérigos, burgueses e plebeus. Pelo caminho até Alcobaça, muitos homens com círios nas mãos. No Mosteiro, muitas missas e grande solenidade para depositar os restos de Inês em túmulo novo.

Também comentam que D. Pedro forçou os nobres a prestar vassalagem a D. Inês, obrigando-o as beijar a mão do cadáver. Mas isso também não vi.

Outros amores? Depois da morte de Inês, D. Pedro não voltou a casar nem a amancebar-se. Sei apenas que, de uma Teresa Lourenço, teve ainda um bastardo ao qual pôs o nome de João. O que ninguém levou ou leva a mal... Nestes tempos, todo o nobre que se preza, em casa tem um rancho de filhos legítimos e fora de casa tem um rancho de bastardos. O curioso é que este bastardo João virá a ser o futuro Mestre de Avis, fundador da segunda dinastia portuguesa. Sei isto porque pertenço aos séculos XX e XXI; o que ainda vai ocorrer, para mim já ocorreu.

Pelo mesmo motivo também sei que os amores de Pedro e Inês, por causa do testemunho dos meus três companheiros de viagem, irão inspirar não apenas gerações de artistas portugueses, mas de artistas de todo o mundo. Serão tema de ópera na Itália, de zarzuela em Espanha, de romance e tragédia em França, etc..

D. Pedro morre em 1367, em Extremoz, e o seu corpo é depositado no túmulo do Mosteiro de Alcobaça, ao lado do túmulo de Inês de Castro. Governou o Reino durante dez anos. E dizem as gentes, chorosas, que “este rei nunca havia de morrer” e que “tais dez anos nunca houve em Portugal como estes em que reinou el-Rei D. Pedro”.

(1) Versos de Camões recolhidos no Canto III de Os Lusíadas.

(2) Versos de Garcia de Resende recolhidos nas TROVAS À MORTE DE INÊS DE CASTRO in CANCIONEIRO GERAL.

(3) Versos de António Ferreira recolhidos na tragédia A CASTRO.

Lendas de Portugal


 

nota: esta não é uma Lenda de Portugal, mas sim uma história de amor verídica passada em Portugal e contada por todo o mundo.